sábado, 26 de setembro de 2009

Só mais um cigarro e você.


Minha mão na dele e eu sabia que era ali que deveria estar. Sentados a beira da praia, sem motivo nenhum para não nos aproximarmos. Minha maquiagem já estava acabada e eu havia perdido todas as presilhas que colocara no meu cabelo mais cedo naquela noite. E o imenso mar a nossa frente me faz sentir tão pequena perto de sua grandeza e tão grande por tê-lo encontrado.
Era quarta-feira a noite e, confesso, não era do meu feitio sair no meio da semana para dançar ou beber. Aliás, não era bem meu perfil sair. Mas algo naquela noite incomumente quente de inverno me fez ir sozinha para a beira da praia. Talvez num ato insano. Talvez fosse o que eu sempre houvesse querido fazer. Fui sozinha, embora dissessem que era meio deprimente, naquela hora não me importava. Coloquei um daqueles meus vestidos que me faziam parecer uma garota do século passado e me maqueei, como se fosse realmente encontrar alguém. Mas não ia. Encontrei alguns amigos, mas queria mesmo extravasar, ficar sozinha e esquecer do mundo, de todos. Estava tudo absolutamente arruinado, mas não era bem minha intenção pensar naquilo. Fui ao bar e pedi que me trouxessem uma tequila. Já estava bem melhor. Depois de mais algumas doses e de dançar por horas sem parar, resolvi me afastar das pessoas, acho que pensei em conseguir pensar, sem sucesso.
Especialmente mais distraida do que em outros dias eu não o vi aproximar-se. Olhava diretamente para o mar e simplesmente não notei que ele sentara do meu lado. Na verdade, não tinha nem ao menos a certeza se o conhecia. Ele parecia tão bebado quanto eu estava, embora não gostasse de admitir isso. 'Boa noite' Ele me disse, mas eu ignorei, pois não tinha certeza se era comigo. Repetiu umas 3 ou 4 vezes, até que me chamou pelo meu nome. 'Ah, oi...' E acho que foi uma das piores expressões já feitas por mim. Precisei me esforçar para aquilo. 'Você não se lembra de mim, né?' Era como se ele sentisse dor ao falar... 'Sinceramente, não' Não era só com ele, eu não lembrava nem direito meu nome até ele falar. Ele insistiu na conversa até que eu resolvi escutá-lo.
Algum tempo depois da conversa começada, ele foi embora e eu voltei para a pista. Embora não lembrasse de onde, eu sabia que o conhecia, de algum lugar, eu o conhecia. Aquele estilo não me era estranho e também não era normal. Parecia-se comigo, embora fosse bastante diferente. Eu tentava lembrar de onde, mas não obtive sucesso algum. Sei apenas que o queria por perto, embora ele tivesse voltado a me ignorar. Foi quando eu o vi se aproximar e, antes que eu pudesse protestar, seus lábios estavam nos meus, docemente os tocando e ele sussurrou, num tom abaixo do normal 'Vamos lá para fora.' E eu não briguei, simplesmente fui.
Sentados na areia, rindo como se sempre estivessemos nos conhecido, contando segredos um ao outro, trocando olhares e beijos. Não poderia imaginar, quando sai de casa, que encontraria alguém capaz de consertar em questão de horas o estrago que era meu coração. Suas mãos seguravam as minhas numa intimidade anormal até para casais de longa data e minha cabeça estava apoiada em seu ombro. Nós sorríamos, em silêncio, sem perceber que o faziamos. Dessa vez fui eu a falar 'A noite está, de fato, deslumbrante' Ele concordou comigo, embora não soubesse que havia me referido a ele e não a Lua ou as estrelas do céu. Elas eram, hoje, insignificantes. Eu fechei os olhos novamente, com medo de acordar.
Até hoje não se sabe aonde estão, pra onde foram. Alguns dizem que os dois viraram estrelas, outros dizem que foram separados, apenas pelo prazer que lhes era conferido o reencontro. São apenas histórias. Para mim eles continuam por aí, andando juntos, tocando-se eventualmente. Na doce ilusão que é amar.

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