quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Não sabia.


Os dentes tricados, as mãos suavam, o coração disparava, os olhos encaravam-na, com a maior profundidade possível. Jamais tinha sentido isso antes. Repassou esse momento, milhares de vezes. Passou horas em frente ao espelho, olhando para si, não olhando para nada, olhando ao redor. Perdia-se em pensamentos, eventualmente pego por um romântico, outras vezes por um apreensivo. Mas não achou que seria tão dificil. Afinal, a peça estava ensaiada, havia um script, criado por ele, em uma cena de sua criação. Ele tinha planejado encontrá-la. Engoliu seco. Não havia som significativo o suficiente, então não conseguia dizer nada. Ela observava seu rosto e sorria. Aquele sorriso com o qual tinha sonhado, estava ali, a sua frente. E ele não conseguia dizer nada. Sua voz se fora. Os olhos da moça brilhavam, ela também estava estática. A respiração descompassou, embora não houvesse motivo algum pra isso. Percebeu que não conseguiria falar. Ele não sabia o que dizer. Era melhor que nos sonhos, melhor que nos ensaios. Era real. Era ela, a sua frente. Deu um passo em sua direção e a deixou, assim, inquieta. Parou. Teve medo de que ela fosse embora. Então estendeu a mão. Estendeu junto a ela seu coração, como se implorasse a bela dama que, dali pra frente, ficasse com ele, que cuidasse dele. Dessa vez, foi ele quem sorriu. Ele não conhecia aquele sorriso. Era encorajador, gentil, meigo, acolhedor... Apaixonado! No momento em que seus corpos se tocaram, ele a puxou para si. Tinha aguardado esse momento por toda vida. Lhe faltou ar. As palavras não eram necessárias, mas uma frase formou-se em sua mente com o doce gosto de seus lábios. Demorou no beijo. Olhou-a nos olhos e disse tudo que conseguia dizer: Eu te amo, como jamais achei que pudesse.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Feche os olhos.


Fechei a mala. Estava pronta para (re)começar. Diziam que eu era nova demais. Quase dezoito anos e já havia vistado tantos lugares. Dessa vez, escolhi a noite como meu destino. Pensei em Las Vegas, mas já tinha ido lá mais do que apenas uma vez. Então cogitei a possibilidade de ir para Liverpool, naquele pub aonde foram descobertos os Beatles. Era longe demais. Decidi, então, que queria me perder o máximo possível daquela vez. Escolhi Amsterdam. Escolhi a poltrona mais confortável e sentei. Tirei da minha bolsa o melhor companheiro de viagens possível. Fechei os olhos, sabia que assim conseguiria chegar mais rápido. Estava rindo sozinha, por dentro. E meu destino se aproximava. Cada vez com mais e mais velocidade. Podia ver as cores se aproximando. A cidade era neon. Verde, azul, rosa, amarelo. E haviam seres estranhos caminhando pela rua. Coelhos, gatos, cachorros. E as putas. Elas estavam dentro de vitrines dançando, me convidando a comprar cada uma delas, por cada uma das noites. Algumas fantasiadas, outras quase completamente despidas. Era aquilo que eu desejara. Entrei em um parque. Gemidos tomavam conta do local. Sexo a céu aberto. E aqui estava eu. Me perdi, quando mais me encontrei. Naquela noite, por uma noite. Ri, bebi, fumei. Não lembrava de muito. O efeito estava passando... Acordei na mesma poltrona, no meu quarto. A Lucy não havia sido tão generosa aquele dia. Tinha me trazido antes a realidade do que eu gostaria. Me levantei, decepcionada, mas ainda assim feliz. E fui me perder na verdadeira noite. Estava pronta para me render aos meus instintos. A noite tinha apenas começado.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Deixa eu brincar de ser feliz.


A fantasia já completamente desfeita era apenas um sinal de que não conseguira terminar o que viera fazer. A maquiagem estava borrada, os olhos manchados indicavam horas e horas de choro por não ter atingido seu principal objetivo. A sala vazia, com as cadeiras viradas e bagunçadas. Nas mesas alguns copos vazios outros pela metade. Mas nenhum deles estava meio cheio. Não ali. Olhou sua bermuda, ela desfiava. Os joelhos e os pulsos estavam marcados, fazendo questão de lembrar-lhe que não tinha sido do jeito que achou que seria. Devia ser o cansaço, a exposição ao fracasso. O cabelo desgrenhado não estava como em outras manhãs, até nele havia um pouco de sofrimento. Os fios mal cortados faziam com que sua imagem fosse ainda mais inaceitável aos que podiam o ver. Mas o salão estava vazio. Ninguém nem sequer lembrava de quem era ali, largado no canto. Confetes, serpentinas. Molhados do choro de um alguém que queria ser mais do que era. Olhou suas mãos e até mesmo elas estavam machucadas, escondiam um mistério. A lembrança do que haviam sido sorrisos, das bebedeiras, das companhias pouco duradoras. Não, não era suficiente. Ele queria ser mais. No entanto, não havia maneira de conseguir. Havia chorado, implorado, se maltratado. Definitivamente, não gostava do que era. Se levantou do chão onde estava jogado. Já era quarta feira e isso indicava que a magia havia acabado. O Carnaval olhou-se no espelho, lembrando do que era, lembrando que jamais passaria daquilo: limitado a 5 dias cheios de pessoas bebadas e lembranças que, para elas, estavam embaçadas. Secou sua última lágrima daquele ano e se foi. Sem nem ao menos deixar saudades. Afinal todos tinham a certeza de que no ano seguinte, ele voltaria.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Saudades do que não tinha.


Ela sentia falta. Sentia falta dos abraços, dos beijos, do andar de mãos dadas. Sentia falta dos olhares, dos sorrisos e das risadas. Sentia falta da forma como ele dançava sem música com ela, da forma como andava, de como falava. Sentia falta das conversas sobre nada em especial e das borboletas a qualquer som parecido com o que seria sua voz. Os segredos partilhados em tardes juntos, os riscos corridos para encontros escondidos. Tinha saudades da forma como eles se entendiam, mesmo que brigassem e também dos dramas infinitos que os dois faziam por aparentemente não muito. Saudades de querer apenas estar junto. Mas descobrira que para ele nada daquilo havia existido. Ela vivera algo que nunca existiu reciprocamente, ela amara alguém que jamais a amou. E assim continuaria. O aperto dos abraços, o gosto dos beijos e a segurança do andar, nada disso acontecera. Os olhares trocados, os sorrisos rascunhados, as risadas ecoadas, estavam apenas em sua mente. As danças usadas como desculpa para aproximar-se, o ritmo de seus passos e o seu jeito descuidado com as palavras, eram invenção de sua mente. Não haviam tido conversa alguma, nem havia timbre parecido com a voz dele. Os segredos eram mera criação de sua imaginação e os riscos só exisitram para ela. As brigas com propósito de fazer as pazes ou ainda o indentificar-se com a troca de olhares, nada disso. Os choros durante dramas começados por bobagens que aparentemente os divertiam depois que passavam, não haviam divertido outra pessoa se não ela. O estar junto, tinha sido uma ilusão. Ele fora, antes de chegar e fez questão de contar a ela que nada daquilo existiu pra ele, embora tudo tivesse acontecido. Deixou a menina no chão, aos prantos, por dias, como jamais fizera com outra. O que ele não sabia é que deixara ali, desconsolada, o amor da sua vida e que este amor (não) voltaria, se não em seus sonhos.