sábado, 30 de janeiro de 2010

O Diário não podia falar.


Eu não queria mais resposta. Procurei em meio aos meus livros um único caderno. Aquele que eu chamava de Diário. Revirei as páginas, revivendo o que deveria ser meu passado. Mas nada daquilo importava. Folheei-as até encontrar uma em branco, estava tudo um tanto fora de ordem, uma bagunça mesmo. Assim como eu. Então, pude começar a escrever, com a certeza de que ele não contaria a ninguém nenhuma das palavras que lhe falasse:
Meu querido Diário,
os dias não tem sido exatamente divertidos para mim. A cada segundo sinto-me como se estivesse mais e mais sozinha e até mesmo as coisas que antes me distraiam parecem bobagens agora. Passei a beber mais, como em um teste. Apenas para ver se o tempo passava mais rápido. Isso só me rendeu a aceleração do fim, foi o que me disseram. Mas eu estava triste e nada, nem ninguém, poderia me ajudar. Conhecia aquele tipo de tristeza. Era aquela que eu não admitia sentir até que fosse resolvida, se isso viesse a acontecer, aquele que machuca muito mais do que todas as outras, a única que é capaz de realmente me fazer chorar. Me pego, dia após dia, lutando contra as lágrimas que insistem em sair de meus olhos. Meu coração estava partindo-se. Eu não gostava nem um pouco da ideia. Por que, afinal, eu sofria de novo? Agora em maior intensidade? Queria-o de volta, e isso era tudo que eu pedia. Queria poder abraça-lo como nunca antes e beija-lo nos lábios, como não fazia já há quase sete dias. Mas ele não correspondia. Diz que aparecere, mas não vem. Diz que pensaem mim, mas não faz nada fora do que lhe convem. Eu conheço essa dor. É como se eu estivesse sendo abandonada. No entanto, dessa vez é diferente. Sei que ele vai voltar, sei que não faz nada disso por mal e sei que é tudo uma questão de tempo. Mas agora eu me questionava se isso aconteceria toda vez que ele fosse para longe.
Tudo que eu sei é que não aprendi a viver sem ele e, portanto, continuo assim. Até que possa ver seu sorriso de novo. Boa noite, meu Diário. E espero que demoremos a nos encontrar novamente. Minhas sinceras desculpas e obrigada.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Volte logo, meu amor.


Eu encarava o canto do quarto, como se esperasse que ele respirasse por mim. Não houve reação alguma. Peguei o copo cheio de vodka pura ao meu lado e dei um longo gole. Já não tinha efeito algum. Eu havia escrito-lhe uma carta, mas ela estava perdida em meio as minhas anotações e não achei que fosse encontrá-la algum dia novamente. Bem, eu estava errada. Peguei a caixa com as coisas que um dia havia recebido. Por que eu fiz aquilo? Até hoje não sei. No momento em que vi a letra dele, em seu formato tão completamente desleixado, percebi que tinha cometido um erro. Como eu pude deixar meu amor partir, assim? Não esperávamos nos apaixonar, é verdade, mas eu jamais tive a intenção de abandonar o que sentia. No começo foi estranho sentir as borboletas, mesmo de tão longe. Depois me acostumei. E ouvir sua voz era como escutar a melhor das melodias. Me visitava, mesmo que em sonhos e o melhor beijo era guardado para não acontecer de verdade. Minha vida. E ela tinha partido. Não havia nada que eu pudesse fazer, precisava mesmo sair. Prometemos nunca deixar que o tempo apagasse o amor, mas era mais dificil do que pensamos no início. Ainda assim, insistimos. Inúmeras vezes tentamos fazer com que cada palavra fosse como um toque, como se cada noite fosse o dia, como se cada sonho fosse nossa pequena realidade. Eu respirava esse amor, vivia por ele. E não posso nem sequer dizer que me arrependo. Mas meu amor partira, sem ao menos uma expressão de dor. Agora eu estava sozinha e tudo que eu podia lembrar era do meu próprio sussurro, afundado em soluços, enquanto eu repetia: Volte logo, meu amor.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Como o vento.


É estranho admitir que, para começar, ele existe. Quer dizer, não podemos tocá-lo ou mesmo traze-lo de volta, conosco. Sempre nos alcançando, e nós sem conseguirmos nos aproximar. E então nos deparamos com a verdade. Quantas vezes já não desejamos que ele simplesmente fosse levado com o vento? Esquecido, completamente? E tantas outras queriamos ao nosso lado, como presença certa, como o proprio momento que vivemos. E então nos proibimos de lembrar ou encaramos por tempo demais. Ah, o tempo. Passa e até mesmo ele nos nega o que as vezes queríamos. Da história de voltar. Mas nada volta. E é ruim saber disso. Ou talvez bom demais. A verdade é que talvez sobre ele não haja verdade alguma. Apenas as lembranças. E elas machucam a quem as vê. E não importa do que estejamos falando. Sempre ficamos tristes ao olhar nossas antigas fotos. Mesmo que nos relembrem os piores momentos de nossas vidas. Ainda assim, são fotos e guardam com elas mais do que uma imagem, guardam o passado. E é dele que fugimos, é pra ele que corremos, é com ele que ninguém sabe, de fato, lidar. Nos alcança e abandona. Como o vento, está as vezes próximo, mas nem mesmo o mais veloz dos homens venceria essa corrida. Sobre saudades, sobre dores ou sobre alegrias. Ele sempre está ali, atrás de nós, nos prendendo a nossa história. O passado.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Não queria.



Não tinha muito a dizer, lhe faltava tempo e vontade de falar. Ela continuava como antes, embora tivesse mudado. Não falava sobre o que sentia, nem demonstrava metade do que fazia. De repente, ela queria fechar os olhos. Fechar os olhos e nunca mais abri-los. Era estranho que tivesse, justo agora, perdido a vontade de manter seus pulmões enchendo-se de ar. Seu coração tinha mais do que nunca um motivo para continuar batendo. E era por isso que ela ainda estava ali. Apenas ele não havia desistido. Desejava falar por si, olhar por si, viver por si. Se assim pudesse escolher. Mas ali estava ela, indo contra tudo e todos. Jogada na cama por mais um dia de verão. Esperando que o tempo passasse, esperando que ele a alcançasse. Mas ele não viria buscá-la. O que seu coração, aquele que queria continuar ali, não entendia era que sua razão jamais voltaria. Porque aquele homem havia encontrado em outro sorriso o gosto do mais perfeito beijo.