segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O Reflexo


Eu jamais achei que fossemos chegar a esse ponto. A falsidade nos rodeia e todos insistem em construir os tão famosos muros de hipocrisia de Lulu Santos. E as pessoas prendem-se a bens materias, perdendo a noção de que tudo de mais importante na vida é aquilo que não podemos comprar. Ignoram o verdadeiro caráter em busca de um padrão. Perdem-se em si mesmas, esquecendo o que era pra ser e simplesmente se encaixando.

Depois querem definir sentimentos. Como podem sentir se nem ao menos buscam no espelho encontrar algo que valha a pena? Como se doar sem nem ao menos dar o menor valor ao que se é? Tudo ao redor torna-se uma mentira. Tão bem inventada que passa a ser a verdade da maioria. E se você foge deste caminho para o abismo, és tu o estranho. Por querer entender as pessoas, por procurar entender-se e por saber valorizar sentimentos e alegrias. Não se pode mais querer ser feliz com pessoas ao invés de coisas, estamos sendo proibidos disso.

Pois acho que eu jamais me acostumarei a este circo armado, às hipocrisias e falsidades (embora admita ser um tanto hipócrita) e a banalização de sentimentos que já foram tão mais importantes. Acho que toda vez em que me olho no espelho procuro desembaçar a imagem a minha frente. Confesso não ter sucesso algum, mas ainda assim me divirto nas tentativas de entender as coisas ao meu redor ao invés de ignorá-las. E se digo alguma coisa é meu coração gritando e repetindo, em alto e bom som, o que quer que seja que meus lábios lhe transmitem. Talvez não seja, de fato, preciso que eu me conheça para poder amar ou sentir. Talvez seja apenas necessário que eu saiba o valor de cada uma das coisas e diga cada uma das palavras como se fossem as últimas a serem ditas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Downpour.

Eu senti a primeira gota de chuva acertar a ponta do meu nariz e ri baixinho, na esperança de que ele não percebesse o que estava por vir. Estar na varanda, no meio da noite, podia ter as suas desvantagens com o temporal que se formava. Mas ele logo se mexeu e reclamou que estava ficando molhado. Abriu os olhos preguiçosamente e me sorriu. Como depois de tanto tempo eu ainda não estava acostumada a te-lo por perto? Eu corei. Percebi, pelo seu olhar que ele queria levantar, mas não tinha forças. Eu mexia em seu cabelo há horas, era natural que agora ele não quisesse se mexer. Mas eu não me importava de ficar com as roupas colando em mim, se ele permanecesse me olhando e eu pudesse continuar a admirá-lo. Acho que, talvez, eu fosse um pouco boba.

Nós continuávamos ali, ora de olhos fechados, ora nos olhando, apenas pelo prazer de ler um ao outro, de nos falarmos sem dizer uma palavra sequer. Era verdade que não conhecíamos nem metade do que o outro era ou da história de nossas vidas. Mas, afinal, quem sabe? Eu olhava tudo ao nosso redor molhado e minha blusa estava completamente grudada no meu corpo. Um pensamento engraçado me alcançou e meu riso o fez acordar, dessa vez ele levantou, sem pensar muito e me puxou com ele. Eu não entendi muito bem o motivo, mas ele queria me tirar de casa, agora.

Reclamei e reclamei, mas de nada adiantou. Lá íamos nós para a rua, no meio do temporal. Eu nunca tinha entendido nada do que ele fazia e ainda assim gostava da sua companhia mais do que da de qualquer outro. Fomos até uma loja e ele me mandou esperar do lado de fora. Demorou tempo demais, tempo suficiente para eu estar cansada de esperar quando ele apareceu, sem nada nas mãos. Estava prestes a reclamar, quando ele me levantou no ar e, me segurando em seus braços, como se já sentisse realmente minha falta, me beijou em baixo da chuva. Todos na rua pararam para olhar. Ele sabia, de alguma forma, que eu sempre tinha sonhado com um beijo assim. Ele sabia, de alguma forma, que havia realizado mais um deles.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Desire.


Eu podia sentir a segurança de suas mãos que atravessavam meu corpo, como se conhecessem cada lugar onde tocar para me fazer perder um pouco mais da quase nenhuma consciência que insistia em permanecer ali. Eu queria perdê-la, se ia me doar aquele homem, era justo que perdesse toda minha sanidade.

Ele tocou minha nuca e apertou seu contorno contra o meu, como se quisesse terminar com o espaço que havia entre nós. Não tive tempo de brigar, era incrível o modo como ele era capaz de me fazer querer mais e mais. Mordi seu lábio inferior, com cuidado, como se pedisse para que ele continuasse o que estava fazendo. E ele repetiu. Uni todas as minhas forças para que meus lábios alcançassem os dele e subi minhas mãos pela lateral de seu corpo, ele se arrepiou, perdeu o fôlego. Mas não parou o que insistia em fazer. Suas mãos passeavam pelas minhas costas, como se quisessem desvendar algum segredo. Ele estava mais perto de descobrir o maior deles, maior do que poderia imaginar, do que eu poderia imaginar. Desceu as mãos até a minha cintura e, cuidadosamente, passou os dedos de leve por ali. Eu gemi. Ele sorria maliciosamente, triunfante. E eu perdia o controle de meus movimentos, a aproximação dele era tão ágil e irresistivel que não tinha como pará-lo. Não agora.

Ele fazia tudo da forma mais perfeita possível e eu sentia nossos corpos em sintonia. Não havia mais como diferenciar a fragrância de nossos perfumes, misturados assim como nós, naquela noite quente de outono. De repente, ele parou tudo que fazia e sorriu, pediu que eu abrisse os olhos e eu o fiz. Tudo para que ele começasse, de novo, a me desconcentrar.

Meus seios em suas mãos, seus lábios passeavam por todo o meu corpo. Já não importava que horas eram lá fora, quantas pessoas existiam no mundo. O desejo entre nós era tudo que nos importava. Eu precisava dele, naquele instante, tanto quanto ele precisava de mim. Ele me beijava, como se eu fosse a única para ele. Mas eu não o conhecia o suficiente para saber se era assim. Também não importava. Meus punhos fechavam conforme ele reconhecia os meus pontos fracos, e meus olhos não paravam de se revirar. O tempo corria e o calor de nossos corpos, tão unidos e sem nada a separá-los. Nossas roupas que antes evitavam o toque completo entre eles, estavam agora no chão de seu quarto, espalhadas, fazendo daquela noite a melhor de nossas vidas.
Eu acordei, no dia seguinte, em seus braços, seus dedos passeavam pelas minhas costas e ele sorria, satisfeito por eu estar ali. Ouvia, agora, a chuva indicando que a noite, para a maioria das pessoas tinha sido fria. Sorri para ele, ainda sonolenta e o senti ainda mais perto agora. Peguei a xícara de café que estava ali e dei um longo gole, me sentando para isso. Procurei o maço de seu Camel e acendi um deles. Dei um longo trago. Um amor, dois cafés e outro cigarro.

sábado, 3 de outubro de 2009

Sem promessas.


Eu revirei minha bolsa em busca de mais um cigarro. Àquela altura eu já estava sentada na calçada e precisava de algo que me esquentasse. Nada melhor do que aquele glamour decadente. Minhas mãos trêmulas não conseguiam encontrar o que eu procurava. Assim como haviam perdido tantas outras coisas naquela mesma noite.

Eu tentava lembrar de tudo que vinha acontencendo desde as cinco da tarde, quando eu comecei a beber. Mas não tinha sucesso algum. Eu lembrava apenas de estar em cima da mesa, dançando, em um instante e no outro nos braços de três ou quatro homens, tentando arrancar minhas roupas. Eu não queria fazer aquilo. Não ali. Chutei uns e outros e sai, precisava respirar. Lembro quando eu fumava mais um de dois maços que já havia fumado aquela noite e eu sabia que já estava acabada, mas, mesmo assim, um loiro veio em minha direção. Lembro que com ele, qualquer lugar era lugar. Eu sentia seu desejo em suas mãos, a apertar minha cintura contra a dele. Uma. Duas. Três vezes. Ele conhecia cada um de meus pontos fracos e eu não tinha forças para brigar com ele. Nem queria fazer. Eu sabia que ele vinha de algum lugar, talvez de mais um de meus sonhos alucinógenos ou mesmo de uma de outras noites. Ele sabia como dizer meu nome, sussurrado, e eu nem havia precisado dizê-lo qual era. Diferentemente dos outros daquela mesma noite, ele não era só mais um com quem eu acordaria. Não chegaria a dormir com ele e isso fazia tudo ainda melhor. De novo, me sentia sufocada e mandei-o seguir para onde quer que fosse. Estava sozinha, por opção.

Finalmente. Achei o que era provavelmente o ultimo deles. E com a habilidade não natural para mim, acendi. Dei uma longa tragada e fechei os olhos, deixando que a fumaça tomasse conta de mim. Um sorriso travesso tomou conta do meu rosto. Embora já houvesse quebrado essa regra tantas outras vezes, era diferente agora. Havia sido diferente desde que o sol havia se posto, na tarde anterior. E agora eu me levantava, sem rumo e isso não importava. Encontrei alguns conhecidos, esbarrei em antigos amores. Mas sabia que queria chegar na praia, embora qualquer coisa naquele momento me distraisse. Eu perdera a conta de quantas doses de tequila eu havia tomado... Cinco ou seis. Fora o whisky e a vodka. De fato, eu não me lembraria de nada. Apenas de que havia sido a melhor noite da minha vida. O cigarro acabou e joguei o que restava no meio fio. Eu senti a brisa vinda do mar bater em meu rosto e o cheiro da maconha trazido por ele me fez lembrar que havia me encontrado com ela, há algumas horas. Eu ri como uma boba e atravessei a rua, sem me importar se vinham carros. Meu vestido já estava completamente sujo e meus sapatos de marca já estavam acabados. Quase fui atropelada por um ou dois carros. Mas eles pararam, para minha sorte. Passei correndo pelos sobreviventes da noite e o sol já apontava no horizonte. Tropecei, mas continuei até sentir as ondas em meus pés. Não pensei duas vezes, entrei no mar e mergulhei. Fiquei lá em baixo por tempo demais.

Eu não acordaria mais, não teria mais nenhum cigarro ao meu alcance. Nada. Mas eu entendia. Aquela noite havia valido toda a minha vida e agora, as cortinas haviam se apagado e o mar me envolvia, como nenhum outro homem jamais fizera antes.