sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Ele se foi.


E ele se foi. Antes que eu pudesse vê-lo chegar. Não ouve barulho, nem foi como nos filmes que eu via. Nada de branco ao meu redor, tudo cinza e molhado. E então o sol, me cegou. E, de novo, passou rápido demais. Não é como se eu me importasse. Nunca gostei muito dele, de qualquer forma. Mas era estranho, embora as horas parecessem se arrastar, embora eu não estivesse exatamente aonde queria estar, ainda assim, ele passara sem que eu pudesse ao menos reclamar. Alguns costumes esquecidos, outros apenas fingidos. Poucos deles se mantinham. De novo, acabara. Não havia neve, não havia sinos, nada. Apenas a lembrança de luzes piscando ou de árvores gigantes completamente enfeitadas. Papai Noel veio, mas nem ao menos fazia hohoho. Eu senti falta das tradições, dos olhos de crianças brilhando e até mesmo da briga pelo melhor presente, eu diria. Queria voltar e comer o dobro porque agora tinha acabado. Dia 25 tinha passado e eu teria que esperar mais um ano para falar: É Natal.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Quarto escuro.


Eu a ouvi chamar de novo. Mas não havia ninguém atrás de mim. Perdia o fôlego em meio aos meus ataques cada vez mais comuns. A voz, de novo. Ela sussurrava, como se quisesse que só eu a ouvisse: Corra. A voz ainda me assustava. E então outra delas, um pouco mais grossa que a primeira: Não olhe para trás. Eu queria gritar, queria me jogar no chão e ficar ali, encolhida, esperando que elas fossem embora. Era sempre assim. Eu vi um vulto passar por mim. E uma nova voz, celestial: Não os obedeça. Levei as mãos a cabeça, e rezei. Agora eram muitas delas, me pedindo coisas, me dizendo coisas, mandando em mim, me contando segredos. Eu já não entendia mais nada. Cai no chão, eu tremia e gritava. Chorava, mas não saia lágrima alguma. Os vultos. Eram milhares. Alguns desesperados demais, outros incomumente tranquilos, ainda haviam aqueles apenas distraidos. Meu grito desesperado e continuo não era provavelmente ouvido por muitos. A altura das vozes aumentava, os vultos se aproximavam e eu podia quase reconhecer cada um deles, mas estava perdida em meus próprios pensamentos, a beira de um ataque de nervos, em meio a um ataque de esquizofrenia. Mais um de meus delírios.

De repente, tudo silenciou. Não haviam vozes. Não haviam vultos. Nada. Apenas eu, um quarto escuro e todo o desespero, agora escondendo-se aos poucos, de que tudo começasse de novo. E começaria.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Baile de (Más)caras


Antes de começar, peço-lhe que me faça um favor: olhe-se no espelho, agora.

Levante-se, vá até o espelho mais próximo e observe a imagem refletida. Cada detalhe, as minuciosidades, olhe além do que pode ver. Tente enxergar o seu próprio eu, sua alma, o que tu és e insiste em não deixar solto, insiste em esconder, insiste em deixar de lado por tantas vezes.

Saiba, tu não estás só.

Andando pelas ruas não pude deixar de notar as pessoas que passavam ao meu redor. Eu, com minha mania de observar demais a todos, comecei a perceber que as pessoas com as quais eu convivia, não os amigos, apenas aqueles com os quais eu tinha que me encontrar, não são o que parecem ser. E fazem isso de propósito. É quase como acordar todo dia de manhã, preparando-se para uma atuação. Onde são apenas coadjuvantes, embora acreditem ter o papel principal. No fundo, todos somos um pouco assim. Mas as pessoas estão se perdendo em seus personagens, perdendo a essência do que valhe a pena na vida, perdendo os sorrisos verdadeiros, os amores mais sinceros. E fazem isso sem perceber.

Digam o que quiserem, estas pessoas não sabem o caminho que escolheram para si. Embora insistam que fingir é melhor do que ser real. Nossa história não era pra ser supostamente tão nossa quanto nossos próprios corações? Assim como se decidimos dividir nossos corações, nossas vidas são automaticamente dividas, deveria ser assim com sorrisos, olhares, abraços. Já não sabem o que é o personagem e o que é o verdadeiro eu.

Continuam ostentando um sorriso frio porque alguém lhes disse que gargalhar provoca rugas. Danem-se as rugas! Se não puderes rir, o que farás então da vida? Balançam as cabeças dizendo sim quando queriam gritar não em alto e bom som. Porque alguém lhes disse que é assim que deve ser. Dane-se o sim! Se não puderes expor sua opinião, quem o fará por ti?

Assim como em um teatro, começam a funcionar como marionetes do sistema, sem saber que estar fora dele pode ser infinitamente mais prazeroso. Escolhem não escrever sua própria história, e todos acham isso normal.

A máscara que vestem, de hipocrisia, falsidade e frieza, embora insistam em negar, começa a impregnar na pele. As personagens tornam-se o que eles são, e separar o que está dentro de si do que aparentam ser, acaba por ser impossível. São coadjuvantes, por fim, de seu próprio espetáculo e, ainda assim, esperam os aplausos de um protagonista.

Olhe-se novamente no espelho. Se tudo que conseguir enxergar for a sua máscara, insista em seu reflexo até que consigas enxergar aquilo que és. Arranque-a de si e amanhã acorde pronto para, finalmente, ser o protagonista do mais fantástico espetáculo jamais escrito: a sua própria história.