quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Até onde?


Talvez seja mais do que chegada a hora de nos entregarmos ao destino e parar de lutar contra o que ele nos reserva. Talvez ter medo não nos leve a lugar nenhum, no final das contas. O medo é paralisador, nos faz reavaliar nossos impulsos. E eu, sinceramente, nunca achei que reconsiderar escolhas é a melhor opção. Quer dizer, quem pode viver sem arriscar? Acordar todos os dias e ter as horas planejadas como em um filme onde é preciso seguir um roteiro para que tudo dê certo... A vida é composta de erros, de acertos, alegrias e tristezas. Não há como prever o que há depois da curva, ou que caminho as águas das nossas corredeiras vão seguir. É inútil e desgastante tentar evitar que sejam feitas opções incorretas. Sem elas, os acertos não teriam o mesmo gosto. Assim como acredito que sem as infelicidades, as alegrias não seriam tão fantásticas quanto são. A verdade é que sempre haverão dúvidas a serem carregadas, mistérios a serem desvendados e medos a serem enfrentados. Mas esta é a história que construímos, que nos comprometemos em seguir. Na maioria das vezes sem sentido algum, mas sempre tão nossa quanto nós mesmos. A vida.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Não era como as outras.


Estava quente, de novo. Mais quente do que em todas as outras noites desde que aquele inferno começara. Ela vinha tentando descansar, sem querer de fato dormir, desde que ele adormecera ao seu lado. Ela fechava os olhos, mas tinha medo de acordar do que parecia ser um sonho. Acordara umas três ou quatro vezes naquela noite para certificar-se de que estava de fato em seus braços, onde ela queria estar. As roupas de ambos estavam pelo chão e ela brincava com seus dedos pela mão dele. Não, não queria levantar. Insistiu no sono, mas ele não vinha. No entanto, ela sabia que não era pelo calor, embora fosse culpá-lo caso ele a perguntasse.

Ele a abraçava de uma forma que ninguém mais fazia. Era estranho o quanto a fazia se sentir segura, mesmo que na maior parte do tempo só a colocasse em perigo. Ela riu para si e tornou a fechar os olhos. Mesmo que tentasse, como em várias outras noites, secretamente sonhava com ele. E dessa vez, o sonho era real. O cheiro de seu perfume insistia em prender-se em seu curto cabelo, nunca a deixando de fato livre da proximidade agora infinitamente maior do que nunca. Olhou-o dormindo, pelo que seria a ultima vez naquela noite.

Ela deve ter adormecido. Acordou com o sol a penetrar pelas cortinas do quarto dele. Preguiçosamente se mexeu, por um instante havia esquecido de onde estava. Beijou-o nos lábios delicadamente, com medo de acordá-lo. O tão habitual gosto de cigarros até nesta manhã era diferente. Levantou-se em busca de alguma consciência e isso o fez despertar. Ele riu ao ve-la no chão e então pediu para que voltasse para a cama. Ela o fez, não estava disposta a discutir.

Mais uma vez entrou em um de seus sonhos, deixando o tempo de lado, deixando que ele deixasse de existir, deixando que ele corresse para os outros e torcendo para que congelasse para eles. Secretamente desejaria a cada despertar daquele verão que esta noite se repetisse. E se repetiria, mesmo que apenas em seus sonhos.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aquele que sempre estará.


Rio de janeiro, 4 de novembro de 2009.
Já se passou tanto tempo, e é estranho que eu continue sentindo a sua falta. Em especial durante esta época do ano. Quer dizer, não que nas outras eu não queira você aqui ou não considere o que farias no meu lugar. Mas, em especial nas últimas semanas, você tem vindo a minha memória com uma frequência inexplicável. Fazem já quase seis anos desde que o seu coração parou de bater, embora eu continue a ouvi-lo, bem baixinho, quando preciso de algum consolo. É bem verdade que assim que tu fostes embora eu achei que não conseguiria ficar aqui sem você. Quer dizer, o que seria chegar lá na sua casa e não te encontrar pra gente encher os balões com água e fazer guerras pelo quintal? Eu jamais imaginei que esse momento chegaria, embora soubesse que ele estava próximo. Quando soube, eu não podia acreditar. Não queria que fosse verdade. E talvez tenha sido por isso que demorei tanto tempo a chorar, de verdade, porque tu tinhas partido. Eu ainda acordava e achava que você ia voltar, trazendo qualquer uma daquelas coisas da feira para mim ou que ias arrastar a polly (como você chamava a Ingrid) pelo chão para ela largar a piscina e ir pra escola. Ninguém podia entender o que eu sentia naquele instante, embora fosse verdade que todos sofressem junto comigo, eu não queria acreditar. Fechei os olhos uma, duas, tres vezes... E você continuava sem um sinal de respiração. Aquele foi, sem dúvida, o dia mais triste da minha vida. Eu queria que nunca tivéssemos recebido aquela ligação.
O tempo passou e, na verdade, estou lhe enviando esta carta para que saibas o quanto as coisas mudaram por aqui! Eu estou terminando o ensino médio! Será que dá pra acreditar? E acho que não deveria dizer isso, mas espero que estejas lá me olhando no dia em que for receber meu diploma! Lembras quando me dizias que eu era muito extrovertida? Vou ser jornalista e escritora. Queria aproveitar para lhe pedir desculpas por todas as besteiras que ando fazendo. Mas acho que deves saber que é da idade mesmo. As coisas por aqui estão muito bem... Aliás, queria lhe pedir para tomar conta da mamãe, se é que me entendes.
Acho que, na verdade, eu queria lhe dizer, vô, que eu sempre vou sentir saudades de você, de todas as histórias que contavas, de tudo que eras pra mim. Tu sabes que, embora eu me arrependa até hoje de jamais ter repetido isso o numero de vezes que tu merecias ouvir, eu te amei e sempre vou te amar como a nenhuma outra pessoa no mundo. Tu és tudo que eu quero ser, como um verdadeiro exemplo pra mim e, a você sim, eu devo a minha vida. Não há nada nem ninguém que, em algum tempo, será capaz de apagar-te de minha memória e suas histórias serão repetidas por mim inúmeras vezes, para que meus filhos entendam o quão incrível era o meu avô.
Eu queria um abraço, um beijo. Queria ouvir sua voz e ver o seu sorriso. Eu vou sentir falta disso até o dia em que puder recebe-los de novo. Mas acho que hoje eu posso entender o que é estar longe e ainda assim tão perto porque, embora estejamos separados por uma linha invisível, eu continuo querendo que sempre se orgulhes de mim. Queria ter tido mais tempo de tudo contigo, mas estou aprendendo a conviver com a falta que faz ter você em minha vida, de verdade. Só espero que tenhas ido sabendo, acima de tudo, que eu te amo e que sempre serei a sua pequena bella.
Um beijo, da sua neta.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Não há amanhã.


Só quem já perdeu alguém que ama sabe do que eu vou falar hoje. Não é como se a pessoa lhe desse adeus e seguisse sua vida, mas como se fosse arrancada de você, sem chances de despedidas. Um dia você acorda e ela se foi, para nunca mais voltar. E não importam quantas lágrimas saiam de seus olhos, escorram pelo seu rosto e molhem o que antes era sua blusa preferida, você jamais voltará a vê-la sorrir para você. Seus olhos estão fechados e tu insistes em recusar-se a acreditar que ela partiu, sem nem mesmo poder escolher se iria ou não. Em seus sonhos, tu rezas para que ela te visite. Mas nada jamais mudará o fato que ela não está mais aqui. E só de ouvir seu nome forma-se um nó em sua garganta e uma vontade de chorar incontrolável toma conta de ti. Ao mesmo tempo tentas se fazer de forte para não ter que ouvir palavras de consolo, pelo simples fato de que nenhuma delas será de fato capaz de diminuir a dor que sentes. Recusar abraços pelo medo de se render e mostrar o que sentes a qualquer pessoa ao seu redor. Guarda para si cada uma das terríveis sensações por encarar que jamais será abraçado por aquele de quem mais desejaria um abraço.

E depois o tempo passa e a maioria daqueles que tentaram te ajudar se esquecem da sua dor, você a guarda consigo, passa a sentir saudades. Não é como se tivesse se esquecido daquela pessoa que lhe deixou, mas evitas entrar em contato com a falta. E o nome dela passa a ser mencionado apenas quando é indispensável. Se não, fica guardado nas mentes e nos corações. A falta continuará a existir, mas você aprenderá a conviver com ela. E começará a aceitar abraços e a deixar que descubram o quanto você sofreu. Ao se deitar na cama, acordará feliz se sonhar com aquele que não está mais aqui. E perceberás que, talvez, aquelas palavras de conforto, afinal, foram de alguma utilidade, pois elas fizeram suas lágrimas secarem. Aprenderás que não importa quanto tempo passe, as memórias desse alguém continuarão ao seu lado e te ajudarão a escrever sua história. E que, de onde quer que esteja, continuarás buscando um meio de deixá-lo orgulhoso porque, sem ele, hoje você não seria você.