quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Aquele que sempre estará.


Rio de janeiro, 4 de novembro de 2009.
Já se passou tanto tempo, e é estranho que eu continue sentindo a sua falta. Em especial durante esta época do ano. Quer dizer, não que nas outras eu não queira você aqui ou não considere o que farias no meu lugar. Mas, em especial nas últimas semanas, você tem vindo a minha memória com uma frequência inexplicável. Fazem já quase seis anos desde que o seu coração parou de bater, embora eu continue a ouvi-lo, bem baixinho, quando preciso de algum consolo. É bem verdade que assim que tu fostes embora eu achei que não conseguiria ficar aqui sem você. Quer dizer, o que seria chegar lá na sua casa e não te encontrar pra gente encher os balões com água e fazer guerras pelo quintal? Eu jamais imaginei que esse momento chegaria, embora soubesse que ele estava próximo. Quando soube, eu não podia acreditar. Não queria que fosse verdade. E talvez tenha sido por isso que demorei tanto tempo a chorar, de verdade, porque tu tinhas partido. Eu ainda acordava e achava que você ia voltar, trazendo qualquer uma daquelas coisas da feira para mim ou que ias arrastar a polly (como você chamava a Ingrid) pelo chão para ela largar a piscina e ir pra escola. Ninguém podia entender o que eu sentia naquele instante, embora fosse verdade que todos sofressem junto comigo, eu não queria acreditar. Fechei os olhos uma, duas, tres vezes... E você continuava sem um sinal de respiração. Aquele foi, sem dúvida, o dia mais triste da minha vida. Eu queria que nunca tivéssemos recebido aquela ligação.
O tempo passou e, na verdade, estou lhe enviando esta carta para que saibas o quanto as coisas mudaram por aqui! Eu estou terminando o ensino médio! Será que dá pra acreditar? E acho que não deveria dizer isso, mas espero que estejas lá me olhando no dia em que for receber meu diploma! Lembras quando me dizias que eu era muito extrovertida? Vou ser jornalista e escritora. Queria aproveitar para lhe pedir desculpas por todas as besteiras que ando fazendo. Mas acho que deves saber que é da idade mesmo. As coisas por aqui estão muito bem... Aliás, queria lhe pedir para tomar conta da mamãe, se é que me entendes.
Acho que, na verdade, eu queria lhe dizer, vô, que eu sempre vou sentir saudades de você, de todas as histórias que contavas, de tudo que eras pra mim. Tu sabes que, embora eu me arrependa até hoje de jamais ter repetido isso o numero de vezes que tu merecias ouvir, eu te amei e sempre vou te amar como a nenhuma outra pessoa no mundo. Tu és tudo que eu quero ser, como um verdadeiro exemplo pra mim e, a você sim, eu devo a minha vida. Não há nada nem ninguém que, em algum tempo, será capaz de apagar-te de minha memória e suas histórias serão repetidas por mim inúmeras vezes, para que meus filhos entendam o quão incrível era o meu avô.
Eu queria um abraço, um beijo. Queria ouvir sua voz e ver o seu sorriso. Eu vou sentir falta disso até o dia em que puder recebe-los de novo. Mas acho que hoje eu posso entender o que é estar longe e ainda assim tão perto porque, embora estejamos separados por uma linha invisível, eu continuo querendo que sempre se orgulhes de mim. Queria ter tido mais tempo de tudo contigo, mas estou aprendendo a conviver com a falta que faz ter você em minha vida, de verdade. Só espero que tenhas ido sabendo, acima de tudo, que eu te amo e que sempre serei a sua pequena bella.
Um beijo, da sua neta.

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